Partilha de Ivna Sá sobre o Encontro Regional Universidades Renovadas no Nordeste

“Foi o tempo que perdeste com a tua rosa, que a fez tão importante.”
“Vinde Espírito Santo e que o dia-a-dia não nos roube o horizonte”

Partilha de Ivna Sá sobre o Encontro Regional Universidades Renovadas no Nordeste.

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Queridos amigos e irmãos, frutos da amizade e da bondade do Senhor nestes quase 18 anos de um mesmo sonho, chamado Universidades Renovadas…
Inicio esse singelo email com o objetivo de abrir o coração, ou melhor, de rasgar o coração na “presença”, ainda que virtual, de cada um de vocês.  Tive a graça de participar no último final de semana do ERUR-NE, o Encontro Regional das Universidades Renovadas, realizado em Maceió, em comemoração aos 15 anos do Ministério no Nordeste, contados a partir do sim de Antônio Becker, pessoa muito querida a todos nós…Sentimos sua falta no encontro, meu querido!!!

O convite já havia sido feito no ano passado, aceitei com grande alegria, aquela alegria de sempre quando me coloco a serviço do nosso sonho. Na véspera da viagem, a Maria Clara, minha filha de 6 anos, disse-me: “Mamãe, eu queria que você não aceitasse…” Eu perguntei: “Aceitasse o quê?” Ela respondeu: “Pregação”. Perguntei: “Mas, por quê?”. Ela disse: “Porque divide a família…” Dei um sorriso e disse assim: “Filha, quando você crescer mais um pouco entenderá que depois do papai, de você e de sua irmã, da nossa casa, da nossa convivência…o lugar onde a mamãe é mais feliz, é no Projeto Universidades Renovadas”.  Fiquei tranqüila até mesmo porque depois da maternidade, fiz pouquíssimas viagens em missão.

Indo para Maceió, senti o desejo de ler o livro “O pequeno príncipe”. Dentre tanta beleza, chamou-me atenção a parte em que o principezinho chega ao planeta terra, depois de visitar vários lugares, conversar com pessoas diferentes. Em visitas a outros planetas ele sempre levou a preocupação com a sua rosa, um rosa muito especial que ele havia deixado em seu pequeno planeta. Ele acreditava que sua rosa era única, que não haveria outra igual em qualquer lugar do mundo. E ao chegar a Terra, a raposa que se tornou uma grande amiga, apresenta-lhe um lugar cheio de rosas “iguais” a sua. Nessa hora, ele se entristece, fica frustrado…Aquela ROSA única, preciosa, era apenas mais uma…Foi quando a raposa disse: “Foi o tempo que perdeste com a tua rosa, que a fez tão importante.”

Ao ler essa parte do livro, uma gota de lágrima ficou ali estacionada nos olhos, queria sair, alguma coisa a segurava. Fui pensando na minha história, naquela Ivna com 18 anos, capaz de tanto pelo Reino, fui lembrando dos amigos que o Senhor me deu ao longo desses quase 18 anos, das experiências profundas e ricas de significado que vivi durante o tempo dedicado àquela ROSA tão cheirosa, tão linda, formada por pétalas de nuances diferentes (daí o sentido da sua beleza). Fui buscando na memória tantas lembranças e quanto mais me recordava, mais feliz ficava em saber que se aproximava o lugar e o tempo onde eu poderia doar-me por inteiro não como nos bons e velhos tempos, mas de um modo novo, com a visão e a leitura que a maternidade me proporcionou, que o peso dos 36 anos ofereceria e, mais do que isso, com o mesmo sentimento daquele pequeno príncipe: já vi muitas rosas, cada uma com sua beleza, algumas muito parecidas com a rosa das Universidades Renovadas, mas nenhuma tinha o valor daquela ROSA com a qual eu “perdi” a minha juventude. Que perda linda, que perda digna de uma vida!!! Falo da perda ensinada por Jesus. “Aquele que perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”.   E eu a encontrei…

Com esse coração, cheguei a Alagoas, na sexta-feira dia 24 de junho, para retornar no domingo, dia 26, à noite. Que alegria encontrar tantos rostinhos novos, a nova geração dos 17, 18, 19 anos…e poder dirigir-me a eles como uma mãe. Que júbilo encontrar rostos já conhecidos, ver um menino que se tornou sacerdote (Samuel), ver uma advogada que retornava a sua casa (Lila), ver a lágrima sincera de uma mulher cheia de esperança (Carol), o rosto cansado e a voz serena de tantos servos, dentre eles destaco o Witamar, pai amoroso dos seus filhos alagoanos. Disse e reitero nessa partilha: Wita, quando vejo você, sou novamente evangelizada. Pude ver também a doação da Márcia, dos servos, o carinho de Dona Alice, do Sr. Ferreira, dos padres, bispos, da reitora, etc…. Vi ainda o mesmo Dênis, amigo querido a quem muito estimo. Lá também estava a Ierecê (nossa última coordenadora) com seu marido Oscar. Um casal que evangeliza apenas com a presença.
Universidades Renovadas é isso: celebrar a amizade sem fronteiras, a doação de corações sonhadores…Nestes dias, pude conviver com dois homens de Deus: o Mococa (meu amigo de sonho, com quem já tive vários embates e que tive a graça de conhecer no início, lá em 1994.) O fato de estarmos na mesma casa nos proporcionou uma partilha sem alcance, tamanha a sua profundidade. Pudemos pensar sobre o passado, indagar o Senhor sobre o futuro e, juntos, colher na lembrança tantos frutos…tantas pessoas. O outro homem é o Felippe: o atual coordenador do Ministério: um jovem de 23 anos, advogado, simplesmente perplexo diante de tantas coisas que via, ouvia e sentia.  Fiquei muito feliz em ver que seu coração é muito sonhador. No último dia, com o coração inflamado, ele falou sobre a coragem: agir com o coração. Emocionado como a Ivna (com direito às lágrimas) e com a autoridade espiritual do Mococa, ele nos chamou ao palco e com a voz embargada pediu-nos que orássemos por ele. Ah, meus queridos, vocês não imaginam o que é ser testemunha de um sonho que atravessa gerações…Tem que ter muito coração para agüentar.

Todo o ERUR teve a marca e o rosto de um ENUCC, de um encontro que atravessa as fronteiras e toma uma dimensão mais universal. Tentarei explicar, por meio de alguns fatos que me chamaram bastante atenção e que pude ser testemunha.

1) Na tarde da sexta-feira, ocorreram as mesas temáticas. Participei da mesa sobre “Violência contra a mulher e a criança”, apresentada pelo professor Gerson: médico legista e diretor do IML de Maceió. Foi uma apresentação forte, com imagens que nos transportaram a um outro mundo, desconhecido de muitos de nós…Pudemos ver o quanto a violência é uma ameaça à vida.  Ao término da apresentação, o Oscar, marido da Ierecê (lá do Paraná), sugeriu que todos os jovens se aproximassem do professor Gerson e que, juntos, rezássemos por ele. Iniciamos uma oração despretensiosa e, quando nos damos conta, um grande clamor ao Espírito, com a cara de Pentecostes, encheu aquele lugar. Ao terminar aquele momento, o professor pediu o microfone e como se estivesse meio embriagado, disse: “Em síntese. Deus existe, Jesus existe, o Espírito Santo existe… e Ele está aqui.”  Meu Deus, que lindo ver o Senhor agir assim no meio do seu povo, oportuna e inoportunamente…Isso também é Universidades Renovadas.

2) Na manhã de sábado, era chegado o momento de dedicar o meu tempo, a minha vida, àquela ROSA tão linda.  Mal comecei a falar e já via muitos rostos inflamados, olhares penetrantes, aquela sede em escutar a mensagem que o Senhor me confiava. Quando abri a boca para falar, era interessante ver que muitos já estavam chorando…Penso que falar daquilo que está tão presente dentro de nós, é verdadeiramente lançar um flecha no alvo preciso. Basicamente o tema era o evangelho da multiplicação dos pães. O que dizer senão que doar 5 pães e 2 peixes não é outra coisa senão doar os nossos sonhos, o nosso sentido de vida,  as nossas possibilidades,  para que Jesus multiplique e o milagre aconteça.  Para fazer valer o nosso sonho não precisamos de estruturas, poder, hierarquias… Precisamos apenas de corações apaixonados por Jesus. Talvez o grande perigo do crescimento é justamente o excesso de estruturas que, se não vigiarmos, pode roubar a essência daquilo que o Senhor nos confiou. Terminei com a canção “Sonda-me” de Aline Barros que é simplesmente uma oração cantada.  Assim diz: “Usa-me, Senhor, como um farol que brilha a noite, como ponte sobre as águas, como abrigo no deserto, como flecha que acerta o alvo. Eu quero seu usada da maneira que te agrada, em qualquer hora e em qualquer lugar. Eis aqui a minha vida, usa-me” .  Ao final, quanta beleza nas partilhas de tantos com quem conversei, quanto carinho! Até cartas eu recebi. Obrigada, Bárbara! Suas palavras foram luz para mim.

3) Na tarde de  sábado, era a vez de o Mococa falar do nosso sonho, com o enfoque na frase: “Se fordes o que devereis ser, incendiareis fogo ao mundo inteiro.” Gostaria de relatar um detalhe que para os mais antigos têm profundo significado. Estava entre nós, neste momento, a professora Heloísa Helena, ex-senadora e candidata à Presidência da República. Participou do início ao fim da pregação do Mococa. Ela não estava ali simplesmente porque um grupo de estudantes se reunia ali. Mas porque representamos alguma coisa. A sua presença dizia muito. Ainda no ENUCC de 1997, sonhávamos em ver o nosso pensamento iluminando o pensamento daqueles que nos representam e pensam o país. Enquanto o Mococa perguntava a quem estava ali  (ele havia pedido que todos ficassem sentados em torno dele) qual era o sonho que cada um trazia no coração, uma pessoa com o rosto desfigurado, cabelos raspados e cortes na cabeça e nas pernas se aproximou dele. Ele a abraçou e disse que ela também era amada por Deus, da mesma maneira que o DEUS da vida ama o jovem, citando o documento de Santo Domingo. Pediu que ela se assentasse, mas logo, logo a pessoa se levantou, dizendo que precisava ir ao banheiro. Foi quando pudemos ver que se tratava de uma mulher, porque estava de vestido. Ao olhá-la completamente desfigurada, lembrei-me imediatamente da imagem do Cristo maltrapilho, rejeitado, a escória da humanidade. Prontamente, levantei-me para conduzi-la ao banheiro. Seu nome era Célia, o marido havia sido assassinado, tinhas duas filhas, estava completamente suja, com vários cortes, inclusive no rosto, um ovo quebrado em sua cabeça. Chorava enquanto pedia insistentemente um brinco, um colar e um celular quebrado.  Célia teve os cabelos raspados na rua para que sua feição de mulher desaparecesse. Oferecemos água, comida, roupas e nada aquela mulher queria. Foi quando, ao levá-la para o banheiro, coloquei as mãos naquelas feridas e pude lavá-la. Enquanto a água caia em sua cabeça e o cheiro do álcool exalava de sua fala, fui perguntando ao Senhor: onde estão os profissionais do Reino? Onde estão as políticas públicas que favoreçam os mais pobres? Onde estão os cristãos? Fui entendendo a força do nosso sonho e fiz uma oração a JESUS. “Permita Senhor que escrevamos uma história ainda mais forte, mais transformadora…que vejamos o mundo com as lentes do Evangelho e não com as nossas, porque com as nossas lentes não conseguimos ver outra coisa senão apenas os nossos problemas, nos preocupar apenas com aqueles que amamos, com os nossos projetos. Vem, Espírito Santo, e que o dia-a-dia não nos roube o horizonte.”
E foi assim que coloquei os meus brincos naquela mulher e doei a ela o colar que trazia no peito: uma cruz missionária que sempre levo comigo quando estou em missão. Ao beijar aquela cruz, eu disse: “Célia, que Ele a proteja. Seja Jesus o centro da sua vida…”. Pode ser que aquele singelo colar nem esteja mais com ela, mas JESUS está como sempre esteve. Naturalmente, toda essa experiência fez-me reler o sonho das Universidades Renovadas. Enquanto sonhamos com uma profissão, com a realização dos nossos projetos e, oxalá, com um mundo novo, muitos, mas muitos filhos de Deus sonham “com celulares quebrados.”

4) No último dia, ao fazer a síntese do encontro o Witamar nos chamou e, ajoelhados debaixo de uma grande cruz, doou a cada um de nós uma ROSA. Um gesto simples, mas com profundo significado. Segurei-a até quando tive uma inspiração. Despedacei toda a rosa. Guardei todas as pétalas em minha Bíblia. Aquela ROSA com a qual eu gastei a minha juventude foi a mesma ROSA com a qual a Eni, o Wiliam, o Wilson, o Brune, a Kenya, a Cris Pelizzari, o Paulo, a Ariane, o Gerbasi, o Jaider, o Willy, a Simonely, a Iacy, a Mirela, o Rodrigo, a Luciana, o Cássio, o Éder, a Verônica, o Gustavo, o Osvaldo, o Luciano, o Sérgio…..tantos, tantos e tantos em BH, mais tantos outros espalhados pelo Brasil afora também gastaram a sua juventude. O valor da ROSA não é igual para todos. Mas tenho a certeza de que tem um significado especial para cada um. Não somos chamados a ser “Universidades Renovadas”, enquanto serviço pastoral, o resto de nossas vidas. Mas somos chamados a levar o rosto sonhador do Cristo, onde quer que estejamos. Somos chamados a ter o coração pulsando um sonho que não tem fim, que não se esgota, que é eterno, porque vem de Deus e deságua em DEUS. Decidi que doarei uma pétala daquela flor a todos aqueles que foram essenciais para que eu não desistisse, para que eu chegasse aqui hoje, dia 1º de julho de 2011, desejosa de doar um tempo para essa partilha que dói os dedos, que divide a atenção com os afazeres de profissional, mãe, esposa, filha, serva…mas que só tem um sentido:  CRIAR COMUNHÃO COM VOCÊ.
De volta a BH, chego ao aeroporto às 7h30 da manhã de segunda-feira, dia 27. Enquanto espero a mala que se atrasara, escuto uma voz doce gritando “Mamãe…mamãe” Era a Amandinha (com dois anos), junto da Maria Clara (6 anos) e do meu amado marido (Toninho).  Era a outra parte da Ivna chegando para completar a felicidade que trazia “na mala chamada coração”. O que posso dizer a cada um de vocês é que essa semana tem sido de muita graça: pude partilhar tudo que digo a você com meu marido e vê-lo se emocionar; com a Mirela e o Rodrigo e receber do Rodrigo um lindo email dizendo que a pétala ficará guardada para lembrá-lo da força do Espírito todas as vezes que ver sua fé esmorecer; com minha secretária a quem tenho profundo amor e ouvi-la dizer: “quando você fala Ivna, a  palavra de Deus chega sem rodeios, vai direto ao coração”; com meus pais e vê-los chorar junto comigo. Enfim, acho que terminarei por aqui. Uma outra lágrima está presa nos olhos, querendo cair. Que essas palavras gerem VIDA na sua vida, gerem calor onde houver frio, gerem acolhida onde há indiferença, gerem SONHOS onde há os vazios que a vida moderna deixou. Vinde Espírito Santos e que o dia-a-dia não nos roube o horizonte.

Ivna Sá dos Santos
Belo Horizonte, 1 de julho de 2011.
OBS: Fiz um vídeo com as fotos que tirei no encontro e com algumas impressões. Está no youtube. Quem desejar matar saudade, recordar, é só acessar: http://www.youtube.com/watch?v=tSnMLxyGy6o

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